Maria
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« em: 05 de Fevereiro 2006, 21:45:50 » |
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Olhámo-nos um dia, E cada um de nós sonhou que achara O par que a alma e a carne lhe pedia.
- E cada um de nós sonhou que o achara...
E entre nós dois Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente, ...Se deu, e se dará continuamente:
Na palma da tua mão, Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.
- O meu nome é Adão...
E em que furor sagrado Os nossos corpos nus e desejosos Como serpentes brancas se enroscaram, Tentando ser um só!
Ó beijos angustiados e raivosos Que as nossas pobres bocas se atiraram, Sobre um leito de terra, cinza e pó!
Ó abraços que os braços apertaram, Dedos que se misturaram!
Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri, Sede que nada mata, ânsia sem fim! - Tu de entrar em mim, Eu de entrar em ti.
Assim toda te deste, E assim todo me dei:
Sobre o teu longo corpo agonizante, Meu inferno celeste, Cem vezes morri, prostrado... Cem vezes ressuscitei Para uma dor mais vibrante E um prazer mais torturado.
E enquanto as nossas bocas se esmagavam, E as doces curvas do teu corpo se ajustavam Às linhas fortes do meu, Os nossos olhos muito perto, imensos No desespero desse abraço mudo, Confessaram-me tudo! ...Enquanto nós pairávamos, suspensos Entre a terra e o céu.
Assim as almas se entregaram, Como os corpos se tinham entregado. Assim duas metades se amoldaram Ante as barbas, que tremeram, Do velho Pai desprezado!
E assim Adão e Eva se conheceram:
Tu conheceste a força dos meus pulsos, A miséria do meu ser, Os recantos da minha humanidade, A grandeza do meu amor cruel, Os veios de oiro que o meu barro trouxe...
Eu os teus nervos convulsos, O teu poder, A tua fragilidade, Os sinais da tua pele, O gosto do teu sangue doce...
Depois...
Depois o quê, amor? Depois, mais nada, - Que Jeová não sabe perdoar!
O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...
Continuámos a ser dois, E nunca nos pudemos penetrar!
José Régio
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